Quando a universidade escuta: a voz cigana que atravessa o silêncio

Não começou com dança, nem com música. Muito menos com aquilo que, por hábito ou preconceito, muita gente espera quando ouve a palavra “cigano”. Por Telismar Lemos junior...

102 0

Não começou com dança, nem com música. Muito menos com aquilo que, por hábito ou preconceito, muita gente espera quando ouve a palavra “cigano”.

Por Telismar Lemos junior

Numa sala da Faculdade de Educação da UFRGS, em Porto Alegre, cerca de 50 estudantes se acomodavam para mais um encontro do programa Encontro de Saberes 2026. Foi dia 30 de março passado, seria mais uma aula teórica, mas não foi.
Quando Rose Winter tomou a palavra, o ambiente mudou de eixo e uma atmosfera de curiosidade, pesquisa e atenção tomou conta. Uma acadêmica rabisca suas observações; detalhes que capta em cada expressão, mas o centro desta matéria é a cigana.
Era o primeiro dia que ela ministrava aulas, um friozinho percorria a nuca, as mãos suavam e, para disfarçar o nervosismo, gesticulava muito. Assim foi a estreia da presidente da Associação dos Ciganos Itinerantes do Rio Grande do Sul – ACIRGS- Rose Winter, cigana da etnia Sinti, iniciou a aula com símbolos fáceis, mas não escondeu a realidade que pesa. Falou de famílias vivendo em condições precárias, sobretudo aquelas que ainda mantêm a itinerância. Falou da diferença entre aquilo que se inventa sobre os ciganos e aquilo que se vive.
Entre mito e fé, como ela mesma definiu, “os ciganos são vistos como místicos, mas não temos uma religião estruturada, como muitos imaginam”, explicou ela, desmontando, com calma, uma das imagens mais persistentes do imaginário popular. Na plateia, o silêncio não era distração. Era escuta e admiração. Rose se mostrava como acostumada dar aulas, disfarçando a insegurança. No íntimo, estava realizando um sonho; dar aulas sobre seu povo em uma universidade.
O assunto prende, invoca questionamentos. Janice da Silva Marques, é professora e veio de Santa Catarina especialmente para cursar a disciplina, sentiu o impacto quase físico. “Foi um grande aprendizado e um desafio de crenças”, disse depois. Mas houve um momento específico que a atravessou a garganta: o relato de uma ameaça de morte vivida por Rose.“Ali eu parei. Porque a gente cresce vendo os ciganos de um jeito… e, de repente, percebe o quanto isso é distorcido”, contou.

Fratura entre o que se imagina e o que se revela

Rose voltou ao assunto mais de vezes. Falou do preconceito que não desapareceu, apenas mudou de forma. Falou de olhares, de exclusões, de portas que não se abrem. E situou tudo isso num contexto maior, de intolerâncias que, nos últimos anos, deixaram de ser sussurradas para ganhar voz alta.Mas sua fala não era só denúncia. Era também revelações de uma cigana.
A socióloga Mégui Del Ré, uma das apoiadoras do projeto, percebeu isso com clareza. Para ela, havia uma escolha consciente na forma como a aula se organizava. “Ela não quis começar pela dança, pela música. Quis começar pela realidade”, observou.E isso não é detalhe. É posicionamento.Porque, como a própria Mégui pontua, aquela cena já carregava algo histórico: pela primeira vez, uma liderança cigana ocupava aquele espaço como docente. “É a quebra de um paradigma secular”, disse. Enquanto as palavras circulavam, outro tipo de registro acontecia.
A moça que rabiscava, aquela citada no início da matéria, é Dandara, não estava distraída. Como o mestre Francisco Goya, retratava através do lápis expressões da cigana. Sentada entre os colegas, a acadêmica de artes Dandara Schmaltz Coutinho vai emoldurando a face da cigana envolvida em uma narrativa de drama, aventuras e realidades. Não estava distraída — envolvida. Traçava linhas rápidas, quase como quem tenta segurar o instante antes que ele passe.“Desenhar esses encontros é uma forma de guardar memória”, explicou depois. “É uma política de visibilidade.”Para ela, a fala de Rose não dizia respeito apenas aos ciganos. Tocava algo maior. Povos que vivem à margem, que constroem vínculos com territórios fora dos centros urbanos, que carregam saberes próprios — todos atravessados por uma mesma lógica de exclusão.“São populações constantemente ameaçadas, expostas à violência e ao abandono”, disse.
Nesse ponto, a sala já não era só uma sala. Era um cruzamento de histórias. O jornalista e conselheiro da ACIRGS em Santo Ângelo, Telismar Lemos Junior, em breve depoimento puxou o fio da memória. Em sua fala lembrou da presença cigana na formação da cidade, das décadas de 1960, 70 e 80, da chegada da família Jorge vinda da Argentina.“É uma história que precisa ser resgatada”, afirmou.E, ao falar disso, trouxe à superfície figuras como Rosa Estevão Miguel — a “cigana dos milagres” — cujo túmulo, no Cemitério Sagrada Família, na capital missioneira se tornou ponto de peregrinação por anos. Uma história que sobrevive mais na oralidade do que nos registros oficiais. Outra história a qual Telismar opina que merece resgate é a vinda da família Jorge que na década de 1960, quando a família Jorge migrou para Santo Ângelo vindos da Argentina.
Conforme o jornalista, Seu Jorge logo se destacou como transportador de valores bancários e depois como CC de prefeitos, atuando diretamente junto ao gabinete executivo. Ele falou também sobre os costumes e modo de vida dos Roms em Santo Ângelo. “Precisamos resgatar a história antes que ela se perca nos escaninhos do descarte”. Porque há um padrão nesse apagamento. Ele não começa aqui. Vem de longe. Vem desde o tempo da diáspora, das perseguições, do genocídio silencioso que marcou a história do povo romani — inclusive durante o nazismo, no episódio que ficou conhecido como Porrajmos.
Tudo isso ecoava, de algum modo, naquela sala.E, ainda assim, Rose escolheu o tempo certo para falar de cultura para, só no final dos encontros, mostrar a dança com suas saias coloridas, e instrumentos musicais. Era o convite à dança, já não havia exotização possível. O olhar da turma já tinha sido deslocado. Já sabia que ali não havia espetáculo — havia sentido.“A dança não é só apresentação. É expressão de alma, de história”, explicou.
Mégui observa que esse fechamento foi simbólico. “Ela deixou a cultura aparecer depois que o conteúdo já tinha sido compreendido.” Foi uma inversão necessária.
O professor de Museologia Heráclito Pereira resumiu o sentimento coletivo com precisão: “É uma oportunidade ímpar de compartilhar conhecimentos a partir da perspectiva dos povos ciganos.”Mas talvez não seja só isso.Talvez seja também um convite — ou um incômodo.Porque, ao final, o que ficou não foi apenas informação nova. Foi uma espécie de desorganização interna. Uma revisão silenciosa de certezas.Janice traduziu isso de forma simples: “Muitas coisas começaram a fazer sentido.”Para Rose, o impacto também foi profundo.
A cigana carregava um sonho antigo de estar na universidade. Não como visitante. Como parte.“Eu nunca imaginei que seria assim”, disse, emocionada. “Ser chamada de mestra, estar aqui… isso renova a nossa luta.
Durante o evento, Rose Winter aproveitou para distribuir o livro Aurora, sua primeira obra como escritora. Com ilustrações de Simone dos Santos Ribeiro, foi a obra foi a grande vencedora do I Prêmio Nacional de Literatura Infantojuvenil para Quilombolas e Ciganos, promovido pelo Ministério da Igualdade Racial em parceria com o Diversifica/UFRB. Publicado pela Editora Cruz e Souza.
Foram três dias, ela ocupou um espaço que historicamente não foi feito para o seu povo — e, ao fazer isso, abriu caminho.“Daquele grupo vão sair multiplicadores”, afirmou.Talvez seja esse o ponto mais importante.Não o que foi dito ali dentro, mas o que começa a se mover depois.Porque, quando a universidade escuta de verdade, não é só o conhecimento que muda.É o olhar.
cigano1

cigano2

cigano3

cigano4

cigano5

cigano6

Neste artigo

Participe da conversa