Entre a fé, a mesa e a estrada: uma tradição cigana que atravessa gerações em Santo Ângelo

No sábado, 15 de agosto, passa do meio dia. A tarde começava a perder lentamente a força do sol, uma casa em Santo Ângelo se preparava para receber...

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No sábado, 15 de agosto, passa do meio dia. A tarde começava a perder lentamente a força do sol, uma casa em Santo Ângelo se preparava para receber uma tradição que atravessa gerações.
Na residência das famílias Ivanof e Miguel, os preparativos começaram cedo.
Na cozinha, Dona Sara, Lara e sua ajudante cuidavam dos quitutes. Os homens se encarregavam do assado. O chopp permanecia gelado. Sobre a mesa, copos de cristal, pratos escolhidos com cuidado, talheres, guardanapos e, no centro, um pudim que parecia esperar apenas a chegada dos convidados.
Mas havia outra coisa no ar. Uma música de batidas que lembravam o flamenco preenchia os espaços da casa. Sobre a lareira, Nossa Senhora Mãe de Deus observava tudo. Era dia de celebração.
E, para aquela família, celebrar não é apenas reunir pessoas em torno de uma mesa. É repetir um gesto aprendido com os antigos. É agradecer. Pedir proteção. Reunir a família. Alimentar quem chega. E manter viva uma memória que poderia facilmente desaparecer se não fosse repetida.
Enquanto os últimos preparativos eram feitos, conversei com Dona Natália. A idade já lhe impunha limites. Ela se queixava de não poder participar como gostaria.
— Não posso fazer nada mais — dizia. Mas seus olhos acompanhavam tudo. Kibanitsa, Sarmen, bolos, doces. Nada poderia faltar. Wellington não escondia sua preferência:
— Kibanitsa é meu preferido. Na mesa, a fartura tinha também seu significado. Pães, frutas frescas e secas, vinho tinto, flores e velas coloridas, entre elas azuis e brancas, eram dispostos com cuidado. Não era simplesmente comida. Era oferenda. Era uma mesa preparada para receber pessoas e, através delas, reafirmar uma relação com o sagrado.
Do outro lado da cidade, em outra casa da família, a celebração já havia começado. Como manda a tradição, também havia bolos, doces, vinho e carne assada. Depois, aos poucos, todos seguiriam para a casa dos Ivanof e Miguel. A festa se deslocava. Como tantas coisas na vida cigana, a celebração também conhecia o caminho.
“PRECISO OUVIR MÚSICA”
O cheiro do churrasco começou a tomar conta do ambiente. Lara cuidava de tudo. Olhava a mesa, os pratos, os guardanapos, os detalhes que ainda precisavam ser ajustados. De repente, reclamou:
— Preciso ouvir música. Estou quase tendo um piti. A caixa de som foi ligada. Lara escolheu um flamenco raro. E alguma coisa mudou. Ela se entregou à música, dançando suavemente, como se o corpo conhecesse aquela linguagem antes mesmo das palavras.
Conversamos. Arrisquei meu portunhol para entrar naquele universo por alguns minutos. Ela me ofereceu um bolinho de Sarmen. Aceitei. A pimenta veio depois.
Retirei-me para um canto da casa, com a boca ardendo e os olhos atentos. Era hora de fazer aquilo que cabe ao repórter quando percebe que está diante de alguma coisa maior que a notícia. Observar.
Como Goya diante de uma cena que não termina naquilo que os olhos conseguem alcançar, fui mapeando, com o olhar, os gestos, os rostos, os objetos e aquilo que não se dizia.
“A GENTE SE APAIXONA PELA VIDA”
Lara voltou a falar sobre a música. E, como quem recita um poema que já carregasse dentro de si há muitos anos, começou a imaginar:
— Imagine agora, com o bolso cheio de dinheiro, um longo e lindo vestido, uma boa maquiagem, uma picape em velocidade na autoestrada, ouvindo essa música que toca o coração, nossas raízes…
Ela fez uma pausa.
— A gente se apaixona pela vida. Não pelo lugar onde estaremos. Mas pela viagem em si, pelos lugares onde estamos, onde vamos. Assim deve ser a vida.
A música continuava.
— Nos apaixonamos pelo mundo sem nos agarrarmos a um só lugar. Assim somos nós, os ciganos. Andamos, andamos apaixonados por todos os lugares onde passamos. Passam campos, passam matas, passam rios. Nós passamos.
E concluiu:
— Passamos apaixonados. Apaixonados pela vida. E assim ela continua. Depois parou. Talvez o “piti” tivesse passado. Ou talvez tivesse encontrado exatamente o que procurava. Lara voltou à mesa, ajeitou os guardanapos vermelhos e anunciou:
— Apesar de minhas colaboradoras me ajudarem, eu tenho que dar o meu toque. Era apenas um guardanapo. Mas, naquela tarde, tudo parecia carregar algum significado.
A MEMÓRIA DE DONA NATÁLIA
Enquanto a casa se preparava para receber os demais convidados, Dona Natália sentou-se à mesa da cozinha. Era hora de seu almoço. Aos idosos, o corpo cobra horários. Há uma disciplina silenciosa na velhice que não permite esquecer a hora de comer.
Ela se sentou. Eu me junto a ela. Por alguns minutos, ficou distante. Depois começou a falar do passado. A tradição, contou, é repetida todos os anos para que Nossa Senhora Mãe de Deus proteja a família, defenda seus integrantes do mal e afaste as coisas ruins.
— Nossos jovens são saudáveis e agradecemos, porque eles não tomam droga, eles não brigam com ninguém. Os vizinhos nos adoram. Aonde nós moramos, os vizinhos adoram. Porque são gente boa. Eles não são gente ruim. São gente boa até demais.
Dona Natália fala de sua família com orgulho. E fala também de uma prática que considera inseparável da vida que aprenderam:
— Temos um costume que não largamos. Damos de comer pro povo que passa aqui, você não imagina. Que nós ajudamos eles, eles ajudam nós. Entendeu?
É difícil não entender. Naquela casa, oferecer comida é também uma maneira de dizer ao outro: você é bem-vindo.
O AVÔ MIGUEL E O TEMPO DOS ACAMPAMENTOS
Perguntei a Dona Natália se aquela tradição vinha de seus avós. O olhar mudou. Ela foi buscar uma lembrança distante.
— Conheci meu avô. Era Miguel. O nome do meu avô.
Falou dele como quem ainda pudesse vê-lo. Era pequena quando o observava tomar vinho.
— Ele tomava vinho, eu era pequenininha assim. Abriu as mãos, mostrando o tamanho que tinha naquela época.
— Ele dava pra mim também. E eu tomava vinho junto com ele. Coitadinho. Um bom homem. Era um grande homem meu avô.
Ela sorriu. Depois lembrou:
— Eu era pequeninha assim. Eu me lembro. Ele me dava vinho. Ele tomava e dava pra mim também, tomar um gole. E eu sentava perto dele. Ele me adorava, que eu era pequenininha, gordinha. As lembranças não vinham em linha reta. Vinham em imagens. O avô. O vinho. O carinho. Os acampamentos. As estradas.
Naquele tempo, contou ela, os ciganos ainda eram itinerantes. Viviam em barracos e acampamentos. Vinham de longe. Horizontina, Três de Maio, Santa Rosa, Alto Uruguai. Também passaram pela Argentina.
Outras famílias ciganas acampavam nas proximidades de Santo Ângelo. O território era outro. A vida também. Mas algumas tradições permaneceram.
ELIAS E DONA ROSA
Dona Natália foi casada com Elias Ivanof, que morreu com mais de oitenta anos. Ao lembrar dele, a voz ganha outra textura. Conta que cuidou do marido até o fim.
— Cuidei dele até a alma dele sair dele. E acrescenta:
— Nunca me deu um tapa. Me educou com serenidade. Um homem bom e sempre preocupado com a família. Ela conta que, quando alguém adoecia, Elias adoecia junto.
— Ficava nervoso. Mas Deus o levou. Ele já tinha oitenta e poucos anos.
Depois vem outra lembrança. Dona Rosa, sua mãe.
Uma mulher que, segundo a memória da família, era considerada curandeira e, depois da morte, passou a ser lembrada como milagreira. Dona Natália conta que houve prefeitos que chegaram a cogitar uma homenagem e até um monumento para sua mãe. A família não permitiu.
— Ela não devia morrer. Devia durar duzentos anos. A minha mãe, porque ela curou muita gente aqui. Naquela frase existe mais que saudade. Existe memória.
O FOGO, A DANÇA E A OVELHA
Aos poucos, os familiares começaram a chegar. Santa Maria, Santa Rosa, Santo Cristo, Cruz Alta e outras cidades da região se faziam presentes. A casa crescia. Na garagem, as brasas transformavam a carne de ovelha. Reinaldo, filho de Lara e Alberto, chegou com o assado. Não poderia faltar. Wellington comandava a churrasqueira. A música cigana tocava. Ele dançava.
Em determinado momento, tomou a pequena filha nos braços e continuou dançando. Estalava os dedos, voltava-se para o fogo, cuidava da carne e novamente se deixava levar pela música. Tudo acontecia ao mesmo tempo. O fogo. A carne. A música. A dança. A conversa. A chegada dos parentes. A celebração.
Perguntei a Wellington sobre os antigos preparativos. Ele lembrou do fogo de chão.
— Muito tempo antes, o assado era preparado ao fogo de chão, toco em brasa, espeto de pau no assado, e o corpo suando. Depois fez uma observação sobre os mais jovens:
— A nova geração não sabe o que é isso. Ele ainda havia alcançado algumas dessas reminiscências. Talvez fosse justamente por isso que se movimentasse tanto naquela tarde. Enquanto assava a carne, Wellington também parecia assar uma lembrança.
“O OBJETIVO NÃO É O COMER”
Alberto chegou para conferir os preparativos. Sorridente, atento, perguntava se todos estavam bem servidos. O chopp circulava. Um copo para um. Outro para outro. A hospitalidade não era cerimônia. Era comportamento.
Por alguns instantes, fiquei observando a cena e uma pergunta me ocorreu: Onde já havia visto festas assim? Talvez trezentos anos atrás. Em outro tempo. Outra era. Outra vida. Algo de familiar se apossou de mim.
Mas Wellington devolveu a cena ao presente com uma frase simples:
— Todas as festas têm fartura. Mas o objetivo não é o comer. É comemorar.
Explicou que, em cada casa, é assim. Cada pessoa belisca alguma coisa. Depois outra. E outra. Tudo é sagrado.
— Não tem como comer de encher a barriga. Haja espaço. Comenta. A comida estava por toda parte. Mas não era o centro. O centro era estar junto.
A CASA CHEIA
Quando todos chegaram, a casa ganhou outra dimensão. Jovens comentam o penteado de um, outro fala sobre seus projetos. As crianças corriam de um lado a outro. As mulheres, sentam separadamente, não por imposição, por respeito aos maridos. As vozes se misturavam. Os copos circulavam. Os pratos eram servidos. Ninguém parecia ter pressa. Não havia exageros. Havia abundância, mas também moderação. Depois que todos estavam satisfeitos, passado algum tempo, os convidados se dirigiram para dentro da casa.
E então o ritual prosseguiu. Os mais velhos repetiram os gestos conhecidos: O bolo com a moeda. O vinho. O beijo no bolo. A repetição não era mera repetição. Era a própria tradição. Aquilo que havia sido feito pelos antigos voltava a acontecer diante dos mais jovens. Uma geração ensinando à outra sem precisar abrir um livro.
Primeiro os homens se sentaram à mesa e dome, falam sobre o ritual. Depois, vem as mulheres, os assuntos variam, são pertinentes. São segredos, é troca de saberes. Os gestos se repetiram. As palavras também.
Nossa Senhora Mãe de Deus permanecia ali. Sobre a lareira. Observando.
O QUE PERMANECE
Talvez seja esse o sentido mais profundo daquela tarde. Uma tradição não permanece porque alguém decide preservá-la como se fosse uma peça de museu. Ela permanece porque alguém a repete. Uma mulher prepara o mesmo alimento que aprendeu a preparar. Um homem mantém aceso o fogo. Uma filha dança com o pai ao som da música que reconhece como sua.
Uma avó recorda o avô que lhe dava um gole de vinho quando ainda era pequena. Uma família reúne outras famílias. Alguém chega. Alguém oferece comida. Alguém pergunta se o outro está bem servido.
E, diante de Nossa Senhora Mãe de Deus, uma nova geração aprende, pela repetição dos gestos, aquilo que os antigos ensinaram pela vida.
Naquela tarde de 15 de agosto, em Santo Ângelo, a celebração não reuniu apenas pessoas em torno de uma mesa. Reuniu passado e presente. Reuniu memória e fé. Reuniu famílias espalhadas por diferentes cidades. E, por algumas horas, entre o cheiro da carne assada, o vinho, os doces, o som do flamenco e a dança, uma antiga maneira de olhar para a vida voltou a ocupar seu lugar.
A estrada também estava ali. Porque, como disse Lara, os campos passam, as matas passam, os rios passam. Nós passamos.
Mas algumas coisas ficam. A fé fica. A memória fica. A família fica.
E, enquanto houver alguém disposto a preparar a mesa, acender o fogo, contar a história dos antigos e repetir o ritual diante de Nossa Senhora, a tradição continuará encontrando um caminho para seguir.
Por Telismar Lemos Junior
Agente Territorial
Membro da ACIRGS

Jovem cigano apresenta o novo corte

Kibanitza

hora sagrada agradecer (1)

bolo de Sarmen

o passado se reencontrando (1)

mesa de quitutes

Lara Miguel

Kibanitza

Wellington

Wellington e a filha

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