Pouca bagagem e muita esperança

Na última matéria da série “Novos Imigrantes” abordamos a situação social dos haitianos que chegam à Santo Ângelo na esperança de aqui encontrarem vagas de trabalho. Muitos não...

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HaitianosOs haitianos chegam a Santo Ângelo sem móveis, com pouca bagagem, sem recursos financeiros e sem um lugar específico para morar. Carregam a esperança de conquistarem uma vaga de trabalho, mas a realidade que encontram no Brasil, em especial em Santo Ângelo, não é das mais animadoras ocasionando também um processo de frustração.
Quem não consegue emprego depende exclusivamente da solidariedade dos irmãos pátrios e principalmente dos brasileiros. Bernadete dos Anjos faz um trabalho voluntário de ensino da linguem e assistência social com alguns destes imigrantes. Ela lança um olhar materno para os haitianos e percebe a falta de suprimentos básicos, utensílios para o dia-a-dia, roupas adequadas ao clima, travesseiros, colchões e alguns não sabem nem onde morar.
Não existe um levantamento quantitativo de haitianos desempregados em Santo Ângelo. Os haitianos também não possuem representatividade ou lideranças que possam falar em nome do grupo e deste modo reivindicar ajuda. A comunicação linguística e o preconceito quanto a cor da pele são outros empecilhos para a contratação em cargos mais salubres e melhores remunerados.
Os haitianos que ainda não tem emprego possuem uma territorialidade indefinida, não moram em um lugar fixo, mudam constantemente de cidade e de residência. Este desprendimento temporário dos haitianos também dificulta o trabalho da assistência social do Município, que não consegue referenciá-los por falta de paradeiro fixo. Quem pretende ajudar, em muitos casos sente-se impotente.
Bernadete percebe que entre os “novos imigrantes”, existem aqueles que dependem exclusivamente da solidariedade, mas faltam recursos para as situações mais simples e inusitadas. Quando ganham um móvel, um fogão, esbarram na dificuldade de fazer o frete destes objetos, por exemplo.
A Secretaria de Assistência Social não faz a busca ativa, in loco, para perceber as necessidades imediatas dos haitianos, nem mesmo eles possuem uma organização coletiva que busque a representatividade dos haitianos na cidade. Mesmo assim cerca de 30 famílias possuem o Cadastro Único que dá acesso a benefícios sociais do Governo Federal, 12 delas recebem o Bolsa Família.
O coordenador do departamento de cadastro social da Secretaria de Assistência Social de Santo Ângelo, Hilário Zancan alerta que existe uma rede de atendimento e espaços adequados para ministrar cursos e treinamentos nos CRAS – Centros de Referência de Assistência Social em bairros da cidade, onde eles podem e deveriam buscar ajuda.
Por fim, é possível concluir que efetivamente faltam agentes promotores do encontro da “boa vontade com a necessidade”. O fenômeno é relativamente novo em nossa cidade e carece de ações coletivas, claras para romper barreiras linguísticas burocráticas. As ações humanitárias individuais parecem esgotar quem ajuda e surtem pouco efeito diante de tanta necessidade.
A matéria que editamos hoje é a última da série os “Novos Imigrantes”. O conteúdo registrado nos quatro últimos sábados mostra faces de um fenômeno em andamento, portanto não é conclusivo, ainda há muito a ser compreendido sobre o processo de imigração dos haitianos. Mas a série colabora com ideias iniciais para que sejam empreendidas novas linhas de investigações e deste modo aprofundar o assunto.

 

 

Marcos Demeneghi: Reportagem e Edição

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