Existem datas que atravessam gerações. Datas que não pertencem apenas ao calendário, mas à memória, à fé e à continuidade de um povo. Entre os ciganos da etnia Rom Kalderash, em Santo Ângelo, duas delas carregam um significado profundo do13 de maio e 12 de outubro.
São dias de preparação das oferendas e agradecimentos a Nossa Senhora de Fátima e Nossa Senhora Aparecida. Dias em que famílias inteiras se reúnem para cumprir promessas, agradecer graças alcançadas e renovar um ritual que sobrevive há décadas através da tradição oral.Embora outras etnias ciganas também mantenham homenagens semelhantes, entre os Rom Kalderash da Capital das Missões o rito possui um simbolismo particular. Tudo acontece dentro das casas. Não há espetáculo. Não existe divulgação pública. Apenas fé.A devoção principal do povo Rom continua sendo Santa Sara Kali, celebrada em 24 de maio, mas muitas famílias Kalderash, sobretudo aquelas oriundas das regiões da Moldávia e Valáquia — atual Romênia — mantêm uma profunda ligação espiritual com Nossa Senhora.
Mesmo sendo um gadjo— termo usado para designar quem não é cigano — fui acolhido pelos Kalderash, como extensão familiar. E foi assim que tive acesso a um dos rituais mais íntimos e pouco conhecidos da cultura Rom Kalderash.
O povo do cobre, da estrada e da memória
Os Roms Kalderash constituem o maior subgrupo do povo Romani. Historicamente conhecidos como mestres do cobre, latoeiros e caldeireiros, carregam no próprio nome a origem do ofício: căldare, em romeno, significa caldeirão.Durante séculos, foram reconhecidos pela habilidade artesanal na produção de tachos, panelas, utensílios metálicos e trabalhos em cobre. Muitos também dominavam a fabricação de facas e ferramentas. Hoje, parte dessa tradição resiste.Os homens, em geral, atuam no comércio de enxovais de cama e mesa, venda carros ou panelas. As mulheres, em geral, dedicam-se à leitura de cartas, à quiromancia e à manutenção dos rituais familiares.
A história dos Kalderash também é marcada pela dor. Permaneceram escravizados na região da Valáquia até meados do século XIX. Foram aproximadamente quatro séculos de cativeiro. A liberdade chegou apenas por volta de 1860, impulsionando a migração de inúmeras famílias para diferentes partes do mundo.Hoje, espalhados pela Europa e Américas, preservam a língua, o dialeto e parte dos costumes ancestrais. Em Santo Ângelo, algumas famílias seguem firmes nesse movimento de resistência cultural.
Fé que atravessa religiões
Entre os Kalderash santo-angelenses existem católicos e evangélicos. Ainda assim, todos convivem dentro do mesmo ritual de agradecimento.A devoção à Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora de Fátima e Nossa Senhora dos Navegantes se mistura ao simbolismo de Santa Sara Kali. É um sincretismo silencioso, profundamente respeitado pelas famílias.“No nosso meio existe respeito”, resume Alberto Ivanof, da etnia Rom Kalderash.Segundo ele, mesmo famílias evangélicas participam das celebrações. “Se alguém não quiser comer ou participar de alguma parte do ritual, não tem problema. O importante é estar junto.”
O dia da oferenda: O ritual começa ainda na noite anterior ao dia santo.
Uma mesa é preparada cuidadosamente. Sobre ela ficam doces, quitutes, café, chá, uma vela acesa e uma torta especial. Em cima da torta, uma moeda.Tudo possui significado.Lara Miguel explica que, antes de qualquer alimento ser tocado, todos rezam. Agradecem. Pedem proteção. Recordam as graças alcançadas.“Qualquer evento importante da nossa vida a gente lembra das festas de Nossa Senhora Aparecida e Nossa Senhora de Fátima”, conta Alberto. “Por isso a gente tem muita fé.”No dia seguinte ocorre o grande banquete.Carne de ovelha, vinho, bolos, pratos típicos e doces tradicionais ocupam a mesa. Nada é simples. Cada alimento carrega a intenção espiritual.Mas há um detalhe importante: apesar da palavra “oferenda” frequentemente despertar interpretações equivocadas, nada é deixado em estradas, rios ou encruzilhadas.Tudo é consumido ou doado.“Não existe desperdício”, enfatiza Alberto. “O que sobra vai para famílias necessitadas ou para quem passa em frente de casa”.
Lara Miguel
“Nossa Senhora sempre está entre nós”
O milagre do menino
Entre uma conversa e outra, Alberto recorda um episódio que fortaleceu ainda mais sua fé.O neto de um compadre apresentou um grave problema de saúde. Exames indicavam uma situação delicada. A família viajou para Porto Alegre tomada pela preocupação.Foi então que Alberto sugeriu a promessa para Nossa Senhora de Fátima.A família realizou a oferenda antes mesmo da cirurgia acontecer.“O resultado foi que deu tudo certo”, conta. “Na cirurgia não apareceu nada grave e a criança ficou curada. É por isso que a gente acredita”.
O repórter no meio dos ciganos
Estive presente em uma dessas celebrações no dia 12 de outubro de 2025.Com autorização especial, acompanhei todo o ritual.Confesso: fui tomado pela emoção.Enquanto a comida era preparada, grupos de jovens conversavam à sombra de uma mangueira. Os mais velhos falavam em romani. As mulheres reuniam-se em pequenos círculos, contando histórias e organizando os pratos.A mesa começava a ganhar forma lentamente.Os melhores copos. Os melhores pratos. Talheres organizados com precisão. No centro, carne assada e um grande bolo.Eu observava tudo tentando absorver aquela cultura milenar.Um gadjo silencioso no meio de dezenas de ciganos.
Lara recorda que, na infância, esse era um momento aguardado com ansiedade. “A gente prestava atenção em tudo porque sabia que um dia teria que repetir o ritual.”Nada está escrito.Tudo é transmitido oralmente.“De pai para filho. De filho para neto”, explica.
O momento sagrado
Só depois de tudo pronto os convidados são chamados.Dois homens mais velhos aproximam-se da mesa. Fazem menção de beijar o bolo branco, pingado com vinho. Depois os filhos repetem o gesto.Todos começam a falar em romani.Não entendo nenhuma palavra.Mas percebo o peso espiritual daquele instante.“É quando fazemos o corte e rodamos o bolo”, explica Alberto. “Esse é um simbolismo sagrado para nós.”Lara complementa: “Só depois disso é que todos podem comer.”
O vinho derramado sobre o bolo representa a invocação da presença da Santa. É o momento em que, segundo eles, Nossa Senhora está espiritualmente presente na mesa.Ali, naquele silêncio interrompido apenas pelas orações, não existe espaço para o sensacionalismo do repórter curioso.Existe apenas respeito.
Homens primeiro, mulheres depois
Após as orações, o banquete é liberado.Primeiro os homens se servem. Comem sem pressa, não há muitas conversas, talvez cada qual pensando na fé.Depois, os homens deixam a mesa. Sem perceber a movimentação, permaneci sentado, no canto da mesa enquanto os homens se levantam. Só depois vêm as mulheres.Lara sorriu discretamente ao explicar que aquilo não era exatamente uma regra rígida, mas um costume ligado ao respeito familiar. Muitos pensarão que é regime patriarcal, mas não é. Existe um “regime’ hierárquico onde a estrutura familiar e o regime hierárquico entre marido e mulher nas comunidades ciganas, particularmente entre os Rom, baseiam-se em tradições rigorosas, onde geralmente prevalece uma organização patriarcal, embora com papéis bem definidos para ambos.
O medo do esquecimento
Lara Miguel teme que parte da cultura cigana desapareça com o tempo.Ela lembra que, quando o pai ainda era vivo, existiam oferendas para diversos santos durante o ano inteiro. Hoje restaram apenas duas grandes datas.“A cultura está se dissolvendo”, admite.Ainda assim, ela acredita na força da tradição oral.“Se continuarmos realizando o ritual todos os anos, os mais jovens vão aprender.”Apesar de nada estar registrado oficialmente, Lara pensa em produzir um memorando escrito para evitar que os costumes desapareçam.O maior medo, segundo ela, é a influência excessiva das mídias e das mudanças contemporâneas sobre os jovens.“Mas a cultura oral é uma bênção”, diz.
A comida também reza
Entre os pratos preparados, dois possuem destaque especial.A kibanitza, uma espécie de bolo folhado artesanal, doce e delicado, preparado lentamente e com atenção espiritual. Enquanto cozinha, quem prepara deve manter pensamentos positivos, de abundância e prosperidade.
Outro prato tradicional é o sarme: trouxinhas de arroz temperado, carne e molho, enroladas em folhas de repolho refogadas.Nada é automático.Tudo exige tempo, foco e estado de graça.Lara prefere cozinhar durante a madrugada.“É quando existe silêncio”, conta. “Só os pássaros noturnos e a brisa da noite”.
Promessas que atravessam gerações
O compromisso com a Santa é perpétuo.Quem alcança uma graça promete realizar o banquete todos os anos, pelo resto da vida. E essa responsabilidade pode ser herdada.
No caso da família de Lara, a cerimônia pertencia ao sogro. Depois passou ao filho. Mais tarde chegou ao cunhado. Hoje está sob responsabilidade dela.E os relatos de milagres se acumulam.Um deles aconteceu quando o cunhado ainda era bebê. Após quebrar uma mamadeira de vidro, acabou engolindo fragmentos. Radiografias mostraram pedaços pontiagudos no intestino da criança.Após a promessa feita à Santa, os cacos foram expelidos naturalmente.“O médico disse que aquilo foi um milagre”, lembra Lara.
Outro episódio de fé envolvendo seu neto, ainda bebê, foi mais um momento de reafirmação da com Nossa Senhora.
Lara conta que o menino apresentou um nódulo na garganta. Exames apontavam necessidade de cirurgia, o que foi providenciado.Entretanto, antes do procedimento, a família realizou oferendas e orações para a santa.Quando os médicos iniciaram a cirurgia, o nódulo simplesmente não estava mais lá.“Oferecemos a oferenda antes mesmo da graça acontecer”, explica Lara, emocionada. “Isso é fé,” diz ela com os olhos marejado baixando a cabeça.
Ela tenta disfarçar. Mas a emoção permanece ali, silenciosa. Um silencio confortante que me fazendo sentir-se parte desta experiência. Assim como permanece viva, entre os Rom Kalderash de Santo Ângelo, uma tradição secular sustentada não por livros, nem registros oficiais, mas pela memória, pela oralidade e pela certeza inabalável de que Nossa Senhora continua caminhando ao lado de seu povo. “Pagamos antes mesmo de acontecer e isso tem peso em nossa fé e, por ter certeza que seremos atendidos, oferecemos o banquete antes”, contou ela com a voz embargada, os olhos brilhando denunciam a emoção disfarçada.
Geralmente, na cultura cigana, o choro é considerado um sinal de fraqueza. As mulheres são criadas para serem pilares de força e resistência da família, demonstrando resiliência perante as dificuldades em vez de lamentar. Trata-se da valorização da altivez, da discrição e do orgulho em preservar a imagem de resistência perante a comunidade e os não ciganos. Lara leva a mão separando uma teimosa lágrima, mas se contém com um sorriso contagiante. Ato que me faz sentir-se parte de um universo pelo qual é muito familiar. Sou impelido por lembranças remotas, ofuscadas como brumas em uma cidade do século XIX na velha Europa. Por instantes divago em um poema de Garcia Lorca: “Através dos olhos da freira dois cavaleiros galopam. Um último e surdo boato tira a camisa, e ao olhar para nuvens e montanhas nas distâncias gritantes, seu coração se parte de açúcar e ervaluisa. Oh, que planície íngreme com vinte sóis nascendo! Que rios existem vislumbre sua fantasia! Mas continue com suas flores, em pé, na brisa, luz joga xadrez altura da treliça” (fragmentos do poema LA MONJA GITANA -F. Garcia Lorca).
O dia de oferenda se perde em datas. Conforme a cigana Lara, ela já presenciava as oferendas ainda com os avós. Portanto, para os ciganos da etnia Rom, reverenciar Nossa Senhora, seja de Fátima, Aparecida ou Navegantes, é secular. Embora os ciganos não tenham uma religião única, eles historicamente absorveram as crenças dos locais por onde passaram, todavia, a devoção cigana por Nossa Senhora é uma tradição secular.
Texto e fotos: Telismar Lemos Junior (Jornalista)



















