Por Adelino Jacó Seibt
Pedro e Maria apaixonaram-se e em menos de dois anos de namoro casaram felizes. Dois anos após o casamento, nasceu a filha do casal. Foi registrada no cartório e batizada sob a euforia dos pais, avós e padrinhos. Chamou-se Eugênia, pois foi de parto normal e fácil nascimento.
Contudo, a menina, após 3 meses de nascimento, começou a chorar muito. E algo estranho ocorria com as lágrimas, pois se transformavam em gotículas duras. Os pais achavam que a razão do chora era isso. Consultaram médicos, recorreram a benzedeiras, mandaram rezar missas pelo fim do choro da menina. Havia o temor que as gotículas machucassem os olhos e a menina ficasse cega.
Procuraram especialistas e fizeram exames das estranhas lágrimas. O diagnóstico foi que as lágrimas se transformavam em cristais. Os médicos garantiram que não havia problemas em afetar a visão da criança. A mãe recolhia as lágrimas num pote, quando Eugênia chorava. Mudaram de cidade e o casal guardou o segredo a sete chaves.
A mãe orientou a menina a nunca chorar em público. Em toda roupa da menina colocou um bolsinho com zíper. Quando tivesse necessidade de chorar que se trancasse no banheiro e recolhesse as gotículas no bolsinho e fechasse o zíper. Dizia a fim de não sofrer bullying. A menina seguia à risca as dicas da mãe. E a mãe cada dia examinava os bolsinhos e sabia exatamente se ela havia chorado ou não na escola ou na casa de alguma amiguinha. Recolhia as gotículas e as colocava no pote.
Quando um pote encheu, a mãe da Eugênia viajou a São Paulo, procurou uma relojoaria famosa, mandou analisar as gotículas. Eram cristais preciosos, raros e caríssimos. Todos queriam saber a procedência dessas bolinhas minúsculas e em grande quantidade, ela desconversou. Propôs a venda desses cristais preciosos nessa joalheria num shopping em São Paulo. Recebeu uma fortuna pelas estranhas gotículas. Antes de voltar para casa, comprava lindos presentes para a menina, ela chorava de alegria quando os recebia, na volta da mãe, mas as lágrimas continuavam virar gotículas preciosas. Todas recolhidas agora ainda mais cuidadosamente num pote de tampa vermelha, claro, para futura venda.
Essa mãe começou a ficar gananciosa. Quando Eugênia estava tranquila, a mãe a xingava até ela chorar. Assim as lágrimas brotavam e a mãe as recolhia no pote misterioso de tampa vermelha. Os vizinhos não tinham muita intimidade com esses moradores estranhos, só ouviam a mãe de Eugênia gritando:
– Chora, Eugênia!


