Basta uma rápida análise no registro de ocorrências policiais na Delegacia de Santo Ângelo, ou nos boletins divulgados diariamente pela Brigada Militar para se ter uma noção de que os relacionamentos neste município, a exemplo do que acontece em todo País, não andam lá essas coisas. O chamado ‘vias de fato’, pela Lei Maria da Penha, nada mais é que o final de uma história que sempre começa como um conto de fadas.
Paquera, conquista, sedução. Paixão, sexo, afinidade. Tudo leva crer que o casal encontrou a tão conhecida ‘metade da laranja’. Mas, será que ele sabe definir quando o amor ultrapassa o limite da cumplicidade, carinho e, principalmente, do respeito?
‘Às vezes o conflito decorre tão somente do estado emocional das partes’
O advogado e professor, Marcelo Ataíde Bocchi, já ministrou matéria sobre Direito de Família, no Iesa.
Segundo ele, cada divórcio ou dissolução de união estável tem suas peculiaridades. “Às vezes o conflito decorre tão-somente do estado emocional das partes, em função dos desentendimentos havidos ao longo do tempo, das mágoas, etc. Mas, não raro surgem sérias divergências quanto a filhos menores (guarda, visitas e/ou valor de pensão alimentícia) e, claro, partilha de bens. De minha parte, sempre que ao alcance, estimulo meus clientes a soluções consensuais”, declara.
De acordo com o advogado, em um percentual de casais, de cada 10 separações em torno de 70% resultam em acordos. “Embora a maioria tenha início sob forma litigiosa. A minoria dos processos inicia sob forma consensual. Os custos de tempo, dinheiro, desgastes afetivos e psicológicos contribuem para que muitos processos litigiosos sejam convertidos em consensuais”, destaca.
O advogado diz ainda que atos de violência física e/ou psicológica estão presentes em 1/4 dos casos, constituindo não raro motivo ao divórcio ou à dissolução de união estável. “Nem sempre são efetuados boletins de ocorrência desses atos. Se efetuados fossem, poderiam ser aplicadas medidas protetivas com base na Lei Maria da Penha”, diz.
‘Sem diálogo, casais dão início a um processo de afastamento, acentuando os problemas’
A psicóloga clínica Suzana Lunardi, especializada em Psicoterapia de Orientação Psicanalítica, Psicooncologa e Terapeuta Sexual diz que já atendeu grande número de casais que não consegue se entender. A principal reclamação é a falta e a dificuldade de diálogo, a ponto de o casal falar somente o necessário com relação a filhos e contas a pagar. “Não havendo diálogo, inicia-se aos poucos um processo de afastamento, acentuando outros problemas como a falta de tempo, falta de participação e cuidados que um casal deveria ter um com o outro para um bom convívio, como paciência, intimidade, carinho, respeito e tolerância”, destaca. Segundo ela, o próximo passo são problemas mais sérios, como a falta de interesse sexual, levando na maioria das vezes a uma traição, falta de respeito, a agressão verbal e física, a separação do casal, e em casos graves até o homicídio.
O que fazer quando o ciúme rompe a barreira do respeito?
Perguntamos a psicóloga Suzana Lunardi o que deve ser feito quando não existe respeito entre o casal. Segundo ela, quando se atinge esse estágio e já não consegue mais resolver o conflito, é importante buscar ajuda de um profissional que possa intermediá-los na busca de um entendimento e resolução do problema. “Averiguar se esse ciúmes tem uma causa real ou se é um ciúmes infundado, advindo de sentimentos de insegurança e falta de confiança em si e no parceiro. Em ambos os casos é necessário o enfrentamento do conflito e a mudança por parte do casal, cada um tomando para si as responsabilidades que lhe é cabida na relação”.
Depois de uma briga, ainda existe conserto. Com diálogo, paciência, compreensão e carinho, o casal procura resolver a situação de conflito e, então o apaziguamento interno de cada um e o resgate do respeito. “Entretanto, se essas brigas tornarem-se constantes, corre-se o risco de aos poucos, os sentimentos que os uniu – supõe-se que o amor, vá se desgastando com essas rupturas freqüentes, tornando a relação e o convívio insuportáveis.
E em caso de briga com lesão, ainda se pode pensar em uma segunda oportunidade para um relacionamento?
Essa é uma situação muito delicada e individual de cada caso. Para que ocorra uma segunda oportunidade é importante avaliar a gravidade da agressão física, se é primeira vez que acontece, enfim todo contexto, assim como o estado emocional em que se encontrava o casal. “Quando os dois são capazes de admitir seus erros, se comprometerem a seguir na relação com o serio propósito de jamais repetir o mesmo erro, e no caso buscar a ajuda de um profissional é possível resgatar o respeito e a confiança um no outro. Remeto-me aqui de uma frase do Paulo Coelho: Tudo que acontece uma vez poderá nunca mais acontecer, mas tudo o que acontece duas vezes, certamente acontecerá uma terceira”.
Quando perceber que é o momento de separar?
Muitos casais não se separam por medo de reprovação social e/ou dificuldades financeiras. Também pesam intuitos de preservação dos filhos e até de eventual resgate da relação. O advogado Marcelo Bocchi diz acreditar que o momento certo é quando constada perda da afeição que gerou aproximação e manutenção do casal como tal, com os momentos de tristeza (com discussões, cobranças, desqualificações) superando os de alegria.” Afinal, as pessoas precisam preservar seu bem-estar, sua felicidade, que pode ser obtida noutra relação”.
Há casos em que homens também são vítimas?
Sim, pois não raro são identificados, por exemplo, atos de alienação parental, em que a mulher, para atingir o “ex”, forja denúncias de maus tratos do pai contra o(a) filho(a), especialmente de abuso sexual. Disso derivam restrições ao direito de visitas do homem à sua prole que direta ou indiretamente afetam outros familiares e refletem diretamente na(s) criança(s). Experiências mostram que o Judiciário e o próprio Ministério Público, modo geral, não estão preparados para enfrentar com celeridade e eficiência esse quadro, perdendo-se meio a orquestrações que chegam a contar com ajuda de profissionais até da Psicologia. Ilustrando, acompanho um caso de flagrante alienação parental no qual o pai está quase há um ano sem poder se aproximar da filha por causa da falsa imputação de estupro. Nenhuma audiência ocorreu, sequer foi montada equipe multidisciplinar para correta averiguação disso. (Marcelo Bocchi)