Os dois reservatórios de concreto armado, construídos pela Corsan no início da década de 70 em Santo Ângelo, estão entre nós há 40 anos. O peculiar formato inspirado em um cálice,
não só contempla delicadas formas no desenho arquitetônico, mas também, sólida engenharia que desafia o senso comum. Únicos no estado do Rio Grande do Sul, foram desenvolvidos
e executados simultaneamente por uma equipe de engenheiros
da Corsan e da empresa alemã Hoffmann Bosworth Engenharia SA entre os anos de 1972 a 1975, juntos, têm a capacidade
de armazenarem em sua plenitude 3 milhões de litros de água (cada reservatório 1.500m3)
Estrutura flexível
Quem já lançou um olhar atento ao cálice que guarda água tratada para os momentos de maior consumo da população de Santo Ângelo, já percebeu que em sua base existem pilares articulados, são estruturas que dão flexibilidade a construção. Segundo o engenheiro responsável pela execução da obra, Luiz Carlos Camargo, esta articulação permite que o reservatório possa realizar manobras de dilatação e continue sem fissuras, caso contrário, poderia ocorrer à falência do sistema.
Este ponto do “cálice”, como tantos outros, obedece a um projeto específico elaborado pela empresa Hoffmann Bosworth Engenharia S.A. que determina a forma dos pilares e armadura das articulações. Camargo conta que “existia um rigorismo enorme”, inclusive foram adquiridos aditivos vindos da Inglaterra para compor a argamassa que seria utilizada.
Quando a obra foi concluída moradores locais evitavam passar perto do reservatório. A parte visível (acima do solo) inicia com uma base de 5 metros de circunferência e se eleva em progressão até 26,5 metros de altura, no topo alcança a circunferência é de 21 metros (valores arredondados). Teresinha Almeida mora na rua Barão de Santo Ângelo, próximo do reservatório, e presenciou a realização da obra, disse que evitava passar perto do reservatório, “aquele formato dava medo, e se chegasse a arrebentar? Inundaria tudo! Evitávamos passar por perto”.
Únicas e sólidas
A construção dos reservatórios levou cerca de 2 anos para ser concluída, desde a sua inauguração não foram pintados, conservam a pintura original feita com “Epoxi branco”. Foram construídos em concreto armado e o mestre de obras que comandou os trabalhos, Jorge Kurtz, disse que contava com cerca de 60 operários, mais uma equipe técnica pertencente ao departamento de Obras da Corsan, que na época era gerenciado a partir a cidade de Santa Rosa.
Kurtz e o engenheiro responsável pela execução, Luiz Carlos Camargo, afirmam que tanto o reservatório localizado na Rua Barão de Santo Ângelo, quanto o da Av. Venâncio Aires, foram construídos simultaneamente e são únicos no Rio Grande do Sul, Camargo foi chefe do escritório regional de obras da Corsan em Santa Rosa e disse ter certeza que é único. Ele conta que na mesma época foram realizadas obras semelhantes em Alegrete e Canoas, no entanto, com as mesmas dimensões e detalhes dos reservatórios de Santo Ângelo, não.
A estrutura inclinada do cálice foi feita com concreto jateado, uma “bomba jato” de alta pressão preenchia os espaços entre as armações de ferro e as madeiras que davam a forma ao concreto. Abaixo do solo duas estacas seguem a profundidade de 12 metros, aos 7,7 m abaixo, estas estacas se alargam em formato de cone e acabam se encontrando e formam uma base subterrânea de 9,2 m.
Reguladoras do Fluxo
Além de constituírem uma referência visual e espacial na paisagem santo-angelense, os reservatórios são os reguladores do fluxo de água na cidade. Saiba como: Ao contrário do que se imagina a água que as pessoas consomem nas residências não tem, necessariamente, um fluxo vindo dos reservatórios em questão.
O sistema em Santo Ângelo é alimentado por duas estações de tratamento, uma delas no centro de Santo Ângelo, junto ao escritório comercial, com água vinda do Itaquarinchim e outra estação no Bairro São Carlos com água retirada do Rio Ijuí. Estas estações de tratamento produzem a água que é jogada na tubulação para o consumo direto nas residências, quando o consumo diminui, o excedente começa encher os reservatórios, um sistema de bóias eletrônicas detecta que os reservatórios estão cheios e envia uma mensagem via freqüência de rádio para as estações de tratamento, automaticamente a estação para de produzir e jogar água na tubulação, proporcionando a economia e eficiência do sistema.
Um gigantesco chafariz
Os reservatórios enchem a uma vazão de 120 l/s (litros por segundo). Antes do sistema automatizado de enchimento, um fato curioso acontecia e causava alvoroço na criançada que morava perto dos reservatórios. Do alto da sua cúpula de cobertura jorravam por nove tocos de PVC a água excedente, (ou, ainda jorra) quando o sistema de fechamento falhava. Delci Gaspar dos Santos, uma das moradoras mais antigas da Rua Barão de Santo Ângelo, disse que as crianças todas da rua brincam quando a água transbordava. “Um espetáculo” falam os moradores. A água que se desmanchava ao redor de tão sólida construção parecia fascinar adultos e crianças. Ao mesmo tempo, revelava um problema constante para a companhia.
Na época da construção, Oscar Pinto Yung morava na esquina da rua Marques do Herval com a Barão de Santo Ângelo, podia observar diariamente a obra, “um trabalhão enorme” em sua memória, além dos obreiros que realizavam a estruturação do concreto armado, guarda os dias em que a água transbordava, em especial, o dia em que o derramamento foi tanto, que alagou a rua toda.
No período que compreende os anos de 79 a 81, Marjore Bier, e os amigos de infância, João Antônio Lourega, Mônica Lourega, Madalena Lourega e Tiago Uggeri, também guardam recordações em torno do mesmo fato. Ela narra. “Aproveitávamos a calmaria das ruas para andar de bicicleta e brincar em volta do reservatório. Quanto transbordava, mesmo contrariando as ordens dos pais, largávamos as bicicletas e íamos tomar banho no chafariz que se formava com a queda d’água. Tempo em que brincávamos nas ruas sem preocupação. O Trânsito quase não existia e a caixa d’água não era cercada como hoje”.
A história e as histórias “das caixas d’água” são tantas. Muitas delas não confirmadas, fatos não registrados nos arquivos públicos do município e nem mesmo a Corsan possui arquivos de fácil acesso sobre a história do saneamento básico do município. Agradecimento especial a Heleno de Mello Monteiro, que trabalhou muitos anos no departamento de operações e manutenção do escritório industrial da Corsan em Santo Ângelo que abriu os caminhos da nossa investigação.
Uma história com frutos
Quando o reservatório d’água da zona norte imperava em uma paisagem marcada pelas ovelhas e capim barba de bode, o Prof. José Knosrt chegou. Ficou impressionado com os frequentes derramamentos de água, ainda testemunhou a cena de um morador de rua que usava a estrutura como abrigo, mas sua mais estreita história com o local é contada pelas árvores frutíferas que plantou. Hoje fazem parte da identidade visual do local e de todos os santo-angelenses.
Quando ao redor do Reservatório da Zona norte só havia capim barba de bode e as ovelhas do Major Majela, Prof. José Knorst iniciou a construção de sua residência, ele veio morar em Santo Ângelo no ano de 1980. Naquele tempo, achava lindo quando o sistema de fechamento do reservatório falhava e formava um chafariz, embora, incontáveis vezes teve que realizar o trabalho de avisar a concessionária do fato, guarda o visual em sua memória. “Era lindo”. Conta o morador.
O local não era cercado a construção imperava em meio ao cenário. Nem mesmo residências faziam parte da paisagem. Knorst conta que um morador de rua chegou a usar o local como abrigo, usava o cilindro da base do reservatório para passar as noites. Na parte interna do cilindro da base existe uma escadaria que permite que os trabalhadores possam subir pelo interior do reservatório, pois bem ao centro de toda a estrutura existe um túnel que vai até o alto do reservatório.
Knorst plantou no passeio, em frente de sua casa, um pé de guabijú, das sementes desta árvore, fez outras mudas e quando a Corsan terminou a terraplanagem para construir o prédio que hoje funciona a superintendência regional e também o escritório industrial, no canteiro em frente à concessionária, plantou nogueiras, uvaias, guabijús, enfim, dezenas de árvores nativas.
Suas paixões são as frutíferas, acredita que as administrações das cidades deveriam incentivar o plantio delas e não das ornamentais. Tanto é verdade, que um de seus sonhos de vida era ter uma jabuticabeira em frente da residência, e claro, o sonho foi realizado. Não é difícil de compreender quando escutamos o relado do professor Knorst, “fico feliz quando percebo os funcionários da Corsan catando frutos das nogueiras que plantei”.
Redação e edição: Marcos Demeneghi
