Tropeiro Manoel

Manoel Maria Cavalheiro é natural de Santo Ângelo, nasceu em 1916. Aos 100 anos conserva a lucidez e muitas memórias, somente este feito já é o suficiente para...

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Tropeiro manoelTropeiro Manoel já cruzou terras dos três estados do sul do Brasil no lombo de mulas e cavalos conduzindo tropas de até 500 animais. Sua primeira viagem neste ofício foi feita aos cinco anos de idade. Daquele dia em diante, ele não teve dúvida, sua vida seria uma grande aventura pelas terras do sul.
Na última sexta-feira, dia 2, recebeu o carinho da família que vê neste homem um exemplo, para nós que conhecemos esta história hoje, uma representação do gaúcho que só conhecemos em poesias e nas páginas dos livros.
Conversando com tropeiro Manoel aprendemos que o chapéu, o poncho, a rede, um pelego e uma boa bota não são adornos e nem conforto, são inseparáveis companheiros de vida, são instrumentos de trabalho para enfrentar as intempéries do clima durante semanas e até meses de viagens no lombo do cavalo ou de uma mula.
– Mas o que é o poncho Seu Manoel? – Perguntei… Na ignorância do meu tempo.
-“O poncho é um pano redondo com um furo no meio, é barraca sem esteio que o guasca leva onde vai. Traste mais útil não ai, quando estia não atrapalha, é cobertor e é mortalha do gaúcho quando cai”.
Num tempo em que não existiam pontes, a incerteza do tempo de viagem era tamanha que o tropeiro não podia pestanejar. Esperavam semanas até que um rio desse passagem e muitas vezes Manoel e seus companheiros “arriscavam o pelo” atravessando o rio a nado. Ele conta que chegou a esperar cerca de um mês até que o rio baixasse para atravessar com a tropa.
Na frente da tropa seguia a égua madrinha com cincerro no pescoço, o barulho ajudava o tropeiro a guiar os animais. No lote de mulas mansas que seguiam na frente ia o carreteiro com o mantimento, uma das mulas levava a cangaia com a bruaca, uma espécie de bolsa feita de couro onde se guardavam mantimentos. Manuel conta que a comida era basicamente preparada com arroz, feijão e charque. Nada mais.
As mulas (cruza de jegue com égua) eram animais resistentes e de bom porte para serem usados em engenhos de cana de açúcar na cidade de São Paulo. A dependência que os fazendeiros tinham destes animais usados para arar a terra, tocar engenhos e carregar a produção alimentava a profissão de Manual.
Durante muito tempo, Manuel conduziu boi gordo para o abate em Curitiba e durante este século de vida mudou-se de casa e cidade dezenas de vezes. Não levava apenas animais, o tropeiro era emissário, levava propostas, fechava negócios e também servia como mensageiro num tempo em que, nem estradas pavimentadas existiam.
O amor deste tropeiro pelo ofício ultrapassa a nossa compreensão, aos 83 anos acompanhado da Esposa, (hoje falecida) Alexandrina Peixoto Cavalheiro, Manoel fez uma cavalgada de 23 dias até a cidade de Curitiba. Ele já amansou muitos cavalos e mulas e nestes 100 anos de vida quase 95 foram ensina de um cavalo.
A história de Tropeiro Manoel mereceria mais algumas páginas, mas um jornal é assim, iniciei o texto às 16h, agora são 17h30min e dentro de alguns minutos está página será impressa. Abandono aqui uma história que poderia render um livro. Feliz aniversário Manoel Maria Cavalheiro.

Edição e reportagem: Marcos Demeneghi

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