Radioamadorismo: A ‘Rodada Missioneira’

Iniciamos mais uma série: “Comunicação local”. Uma sequência de matérias para lembrar como os moradores de Santo Ângelo utilizavam ou ainda utilizam as possibilidades comunicativas do rádio, jornal,...

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Iniciamos mais uma série: “Comunicação local”. Uma sequência de matérias para lembrar como os moradores de Santo Ângelo utilizavam ou ainda utilizam as possibilidades comunicativas do rádio, jornal, telex, telefonia, TV e internet. Na primeira matéria da série, um breve relato sobre o radioamadorismo e a “Rodada Missioneira” 

Ivan Frey Fideles mostra um dos equipamentos que usava - Foto Marcos Demeneghi
Ivan Frey Fideles mostra um dos equipamentos que usava – Foto Marcos Demeneghi

“O radioamadorismo ainda vive” e possui adeptos no mundo todo. Mas hoje, vamos recordar alguns episódios do passado, em especial, da “Rodada Missioneira” que identificou durante as décadas de 60/70 e 80 o horário que radioamadores de Santo Ângelo iniciavam uma espécie de roda de conversa por meio da tecnologia do rádio magnetismo.

Nestes encontros combinados, radioamadores e usuários de um sistema de comunicação individual de curta distância por meio do rádio, chamado de PX, ou Serviço Rádio Cidadão, trocavam informações.

Existia também o Rádio Clube de Santo Ângelo, que era identificado como PY3 ANR, seus integrantes além de combinarem o churrasco no final de semana, prestavam serviços de utilidade pública. Tanto que, os amantes desta tecnologia da informação eram considerados reserva especial das forças armadas, devido a importância estratégica da rede de comunicação que formavam e que permitia a troca de informações de utilidade pública.

Existe uma homologação internacional para operação em três classes A, B e C. Cada uma delas com determinadas finalidades e autorização específica. A classe ‘c’ por exemplo, é considerada a faixa do rádio cidadão, onde operam na banda dos 11 metros. Este tipo de operação ganha a designação de “Citizen’s Band” (CB), a Banda do Cidadão, conhecido também como PX.

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Ivan Frey Fideles fazia parte desta associação e operou durante muito tempo na faixa dos 11 metros. Mas, chegou a falar com radioamadores norte americanos, europeus e de outros lugares do Brasil e do mundo. Conta que após os contato via rádio frequência costumavam realizar a troca de cartões postais por correio, como forma de confirmação do contato e gentiliza. Ele ainda guarda os cartões recebidos do capitão de um navio mercante que viajava nas proximidades da Ilha dos Açores. Também conta sobre o contato com Capitão Ranchetti, que pilotava uma aeronave que se deslocava do Rio a Dacar, além de outros episódios que caracterizam este tipo de comunicação que também se tornou um hobby na vida de Ivan e de muitos radioamadores do município. Além do PX já usou o um rádio que ele denomina ‘Paraíso’ fabricado pelo PY3HF (morador da Linha Paraíso em Santo Ângelo) e um YAESU7B.

Além disso, Ivan lembra que nesta época o telefone ainda não era popular e narra que usava o radioamador para confirmar a chagada dos rolos que continham os filmes para exibição no cinema, tendo em vista que, era proprietário do Cine Avenida e buscava informações sobre o transporte das películas que vinham de trem para Santo Ângelo.

Ivan enumera alguns integrantes do Rádio Clube de Santo Ângelo como Guido Emmel que operava na classe A. João Batista Albrecht, Luiz Fernando Moreira, Francisco Selbrancicoski, Rubens Schneider, Nestor Wagner, Vergílio Glasenapp, Cláudio Toso, Geraldo Furian, Paulo Santos, entre outros. A sede da associação era na Rua Uruguai, próximo aos Bombeiros, conta Ivan.

A Rodada Missioneira era um horário combinado em que os radioamadores sintonizavam determinada frequência para uma conversa amistosa ou compartilhar informações de interesse público. Ivan relembra que foram arrecadados alimentos para suprir a necessidade de pessoas atingidas por enchentes, avisos sobre condições de estradas e muitas outras informações que faziam parte do cotidiano da cidade naquela roda de conversa feita a partir dos radioamadores.

Em geral o equipamento usado é portátil, os radioamadores não recebem chamada direta, como nos telefonemas, ou aplicativos de mensagens, mas permite combinar o momento de conversar e também, a sintonia fortuita de um novo amigo que esta operando na mesma frequência naquele momento.

O modelo de comunicação estabelecido é semelhante as contemporâneas redes P2P – Peer-to-peer, na qual os usuários da arquitetura de redes de computadores são clientes e servidores ao mesmo tempo sem a necessidade de um servidor central. Em resumo, todos conversam com todos e não segue a lógica da comunicação de massa como o rádio, jornal e TV, pois nestes últimos, a informação segue de um único ponto central para os demais.

Este modelo de comunicar, no qual, todos conversam com todos, sem uma emissora central, é muito propício à sociabilidade, tanto que, o radioamadorismo também se tornou um hobby com o qual os usuários conheciam novas pessoas e se relacionavam a partir desta cultura.

A ideia da criação da banda se originou em reuniões internacionais, logo após o término da Segunda Guerra Mundial, quando os países desejavam dar aos seus cidadãos um meio de comunicação mais livre, sem a necessidade de cabos ou fios e ao mesmo tempo sem muita burocracia para sua execução.

Tecnicamente o conceito de radioamadorismo está associado a um hobby técnico-científico e um serviço de telecomunicação que é praticado em quase todos os países do mundo por pessoas habilitadas e homologadas para isso, mas, sem motivação de lucro.

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